somos instantes

Parece humano querermos parecer rochedos ou construções inabaláveis.
Quem sabe uma escultura num jardim onde os pássaros possam vir poisar,
as palavras escritas numa placa que dará nome a uma rua.
Mas somos instantes.
Pedaços de sentimentos, marés de vontades,
taças de fragilidades, traços de resiliência
e gotas de gratidão.
Apenas gotas.
Sempre tive a sensação de ser um grão de areia na praia…
Importante é ter e saber amar, sonhar
e permitir que alguém sonhe connosco.
Importante é ser louco
e ter alguém que partilhe dessa loucura.
Todas as coisas valem… pelos instantes que somos.
Que ninguém se permita ser menos que um instante só.

© Lília Tavares (a publicar)

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                                                                Pintura mural

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Em todas as memórias

Em todas as memórias apenas sonhadas, há quase sempre o destroço de um desejo como um pedaço estelar, uma mão-cheia de areia da praia que vive nos nossos olhos. E há cor, odor, texturas. Como um corpo ao nosso lado. Acarinhado. Certo. Entrelaçado nos fios da teia da noite…

© Lília Tavares (a publicar)

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Fotografia manipulada digitalmente: The front room de ©Jeffery Becton

Gosto de pessoas tipo carimbo

Gosto de pessoas tipo carimbo. Deixam marcas indeléveis nas nossas vidas. Não gosto da companhia de pessoas tipo post-it. Descolam-se quando já não precisam de nós. Prefiro as pessoas tipo hera. São abundantes e generosas. Já as tipo flor de plástico não frutificam. São meramente decorativas.
Ah, como gosto das pessoas tipo pássaro. Gostam de estar connosco, mas amam a liberdade delas e a nossa também.
As pessoas tipo rochedo são robustas e firmes nos seus valores e dão-nos protecção nas tempestades. Desconfio das pessoas tipo ‘se’ e das tipo ‘talvez’. Deslizam como serpentes, levam-nos à angústia que só sentimos quando fazem chantagem connosco. Nunca estão satisfeitas.
Prefiro estar longe das pessoas tipo camaleão. Para nos conquistarem ou àqueles que nos são queridos, mostram-se gentis, ‘o must ‘. Assim que chegam ao seu objectivo, mudam de tom, tentam comandar-nos, manipular-nos. Põem de parte os afectos e são cheias de caprichos para apenas satisfazerem as suas necessidades.
Não me importo que a presença de alguém me deixe triste. Tenho o direito de afastar quem me queira fazer sentir infeliz.


© Lília Tavares (a publicar)

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                                              Carimbo Japonês Vintage

TARDE

A tarde é mais do que o pousar brando das aves e das borboletas.
Mais intensa que o rasto de uma gaivota no fio do horizonte
é o tempo de te ter entre os meus dedos. Partes. Silencio-me.


© Lília Tavares (a publicar)

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Fotografia de © Elsa Estrela

A noite desceu as suas cortinas


A noite desceu as suas cortinas.
Deixou-se estar. Afinal, o dia terminava como todos os que ficaram para trás.
Recordava. As mãos macias no papel amarelo onde se sentiam as texturas do tempo.
Prometera não voltar a abrir. Prometera nem abrir a pequena gaveta que cheira a dias amarrotados. O azul da tinta já pálido, enterrou-se nos sulcos das letras. “Parece braille”, pensou.
Perdera-se a capa. Só eles sabiam (Maria achava que ele ainda sabia) a ternura das palavras escritas num caderno de linhas. Trinta anos. Tempo de vazios e cúmplices instantes de silêncio. Perdera a viagem para o sonho. A ilha para dois enamorados por palavras. Isla Negra ou Lanzarote. O mar, um par de mãos no vento, cabelos de sal. A cumplicidade de quem espera da vida carinho, horas sem fim, noites acesas, papéis, tinta, cartas, música concertada com a dança das ondas. A velha máquina de escrever tem desbotada a fita e a tecla do A encravou há muito. De tanto escrever mar, barco, amor, saudade, viagem…
O que parece não fazer sentido aceita-se como uma roupa que não se usou. Ajeitará o segundo botão da sua camisa enquanto ele apertará o último laço do seu vestido.

Sentem-se memórias. Sépia. Um livro por fechar com um pedaço de renda.
Acendeu uma vela quase ardida.
“E será sempre assim.”

*
© Lília Tavares (a publicar)

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Há mulheres que germinam entre flores.

Há mulheres que germinam entre flores. Nunca se interrogaram porquê. Possivelmente porque na sua concepção, a janela do quarto de uma mulher e de um homem que se amavam tivesse ficado aberta. Por ela entraram pólen e luar, envolvendo beijos, fecundando sonhos.
Em maio nascem estas meninas-mulheres. São rosadas. Os olhos têm cor indefinida, algures entre o violeta e o firmamento, têm a profundidade do gineceu de uma anémona.
Crescem num tempo que dificilmente condiz com o dos relógios. Trazem em si uma clepsidra oculta que conta gota a gota o tempo que levam até ao limbo do amor.
As suas mãos têm o toque aveludado das violetas. Vestem o olhar de miragens de campos de alfazemas onde encontram a calma nas tardes de sofrimento. Erguem-se como árvores carregadas de flores. Sentem-se glicínias e magnólias, mas dos seus ramos o vento não arrebata as folhas. Assolam o ímpeto dos outonos, abraçam todos os momentos em que foram felizes. São perenes e sobre abraços escrevem, como se estes as prendessem para sempre à vida. Sustentam-se de poesia e de ternuras. Saciam-se como as sementes que infinitamente lançaram à terra. Não são nem tudo nem nada porque ao seu lado ninguém se sentiu só na primavera.

(Para Alice Queiroz. Com saudade.)

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             Óleo s/ tela, de © Kristin Vestgard

Era Noite

Era noite e desceu
o teu braço no meu
minha chama aqueceu
minha barca soprou
e o céu que chegou
foi a vida que quis
meu pequeno batel
no teu cais atracou
dá-me luz p’ra subir
p’ró meu corpo despir
minha alma molhada
na lareira enxugou e
na cama se achou.
Dá-me o lençol e a lã,
dá-me a pele e o sentir
meu cabelo tapou
a nudez que encontrou
no beiral da tua boca
como andorinha pousou.
Traz a areia e o mar,
minha casa, meu ser,
lava-me com as mãos
na leveza do querer.
Enche a barca, amor,
eu soluço e o pesar
deslaçou meu cordel
parte cedo o batel
prende a âncora fatal
firma o meu barco no teu
que o porto é pequeno
e o desejo navega
nestas águas, no rumor
do vento que acalma
o sussurro dos dedos
nossos olhos cerrados
as janelas do corpo
sem luz para habitar.
*
© Lília Tavares (a publicar)

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Ilustração de ©Kristin Vestgard

Queria saber escrever um poema de natal

Queria saber escrever um poema de natal.
Não estive lá, penso para mim.
Mas se tivesse estado e fosse uma pastorinha,
uma ovelha, um burrinho ou só o ar
para respirar…
Até podia ser uma criança, filha do hortelão
que fornecia a estalagem onde eu vi,
de olhos muito abertos, o hospedeiro muito apressado,
a desdenhar, pois então, do homem cansado
com o seu cajado a dirigir com cuidado.
Fechou-lhe a porta na cara e ali já pude ver
um burrito que levava sentada, uma linda
mulher jovem, sossegada, que sorria de ternura.
“É preciso encontrar lugar para eles”, pedi ao papá.
E ao ver uma estrela enorme como um sol,
pôs-me às costas para mostrar o carreiro
para a gruta, quase cabana, onde tomaram caminho.
Já à noitinha, o pai cortou umas couves, fez uma sopa
e levou, comigo na sua mão, para a gruta de Belém.
Onde estaria antes a criança que eu não vira?
Da sopa não pôde comer. “É um bebé”, disse o pai.
Dei-lhe um beijinho na testa, o soninho já chegava.
Sonhei numa noite só que aquele Menino a Quem
fecharam a porta, terá sempre o Seu coração aberto.
O papá explicou- e era só hortelão- que há dentro dEle
Amor que nunca será demais e que Se chama Jesus.
*

(deve ler-se com a entoação entusiasmada com que contaria
a história de natal a uma criança pequenina)

*

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        Aguarela s/ papel Canson: Adoração do Menino. 31. ©Irene Gomes
*
in 
NÃO HAVIA LUGAR (e-book, vários autores, 2017)
*
link: https://issuu.com/correiasepulveda/docs/n__o_havia_lugar__colect__nea_de_na

És o meu pedaço desejado de pão fresco

És o meu pedaço desejado de pão fresco,
a fruta vermelha e suculenta na minha mesa,
a madeira do fogo quente no meio leito. Sinto-te.

Falas da primeira liberdade, do dia
em que fui véspera do mar e não partiste.
Por ti dava o amanhecer claro dos meus dias.

Repito num silêncio sem pressas o teu nome.
Cada sílaba um leito de memória inteira.
Atrás da porta, a vida que espera, semente só.
Vem.

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                             Fotografia de © Ernesto Scarponi

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Este poema ganhou uma Menção Honrosa no Concurso Manuel António Pina 2017, organizado pelo
Museu Nacional da Imprensa (Porto, 18 de Novembro de 2017)
2    3   1   certificado