Não tenho medo de sonhos adiados


Não tenho medo de sonhos adiados.
Sinto saudade dos momentos futuros, desejo trazê-los
até mim para que guardem corpo, pele, mãos, desejo,
saciedade….
Somos duas páginas desencontradas neste momento,
desejosas de juntar palavras…

2495-LILIA TAVARES-il_fullxfull.357606770_87au
Técnica mista s/ tela: Summer road, por © Mae Chevrette
*
Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

PARTO COM OS VENTOS - Cópia (2) - Cópia

Anúncios

OUVE-ME

Ouve-me: preciso de um amigo que abane o (meu) mundo.
Não sei se escutaste bem: tem de ter um coração de ave,
mas o seu grito contra o mal tem de ser forte como trovão.
Se eu cair, há-de levantar-me como se eu fosse pluma.
Soprará nas minhas feridas e a minha dor passará como nuvem.
Sempre quis um amigo assim.
Quando a solidão me fechava num quarto, ele abria janelas.
Se as lágrimas rolavam porque alguém partira, bebia-as como licor.
Sabia que voltava para o seu país quando há muito os meus olhos dormiam.
Disse-me num por do sol que chegaria um dia em que eu não daria pela sua ausência.
Ficaria a vigiar-me do seu país e daria recomendações às estrelas, à lua e aos peixes.
Faltou uma manhã e não mais voltou.

*
1) ‘Ouve-me’ integrou o conjunto de poemas ditos por José Proença Carvalho em ‘Principezinho’ JFLumiar, 2016-17)

5900-LÍLIA TAVARES-principezinho
Arte de © André Britz

COISAS

Sabe-me a pouco
este rumor de coisas pequenas
e simples.
O volume do barro,
o ciciar do vento nas folhas rubras,
a concavidade das grutas da falésia
onde o mar se demora.
As minhas mãos
não cabem na brancura
da nudez destas coisas que por serem ingénuas
só se chamam
coisas.

1280-LILIA TAVARES
              Fotografia de © Leszek Bujnowski.

Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

PARTO COM OS VENTOS - Cópia (2) - Cópia

SEMPRE

Sempre me encantaram as janelas. Porque fechadas ocultam a intimidade de um quarto, de uma casa. Porque ali se aninharam sonhos, se enxugaram lágrimas, se encostaram lábios que embaciaram vidros em resultado das muitas esperas.

Abrem-se por vezes para se olhar o céu, molhar o rosto com os rios que as nuvens libertam, encher-me por dentro do ar do anoitecer e saudar com os braços e a alma aqueles por quem tanto se esperou.

Ah, aprendi há muito que devo cerrar os olhos e as cortinas da janela antes de ver partir no fim da rua, na margem do horizonte, aqueles de quem nunca me quero separar. São gotas de muitas águas, como eu. Levam e deixam a saudade agarrada às recordações, como velhas pontes de pedra que sabem de cor a melodia das manhãs…

4261-LILIA TAVARES-11892198_1120410114639229_529686758923125883_n

Janela, in Pinterest

Eufeme # 4: Jul- Set 2017

«(…) Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas…»

  (Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto)

Estamos numa época em que as revistas de Poesia se impõem pelo
número e diversidade. Desconheço se pela permanência e longa vida.
Conheci Eufeme  há cerca de uns 10 meses. Sem querer, atravessou-se
no meu caminho como uma nortada fresca. Li, informei-me, observei-a
em detalhe. A ela fiquei ligada com um cordão umbilical. Faz-me falta.
Revela-se como uma publicação que  selecciona, cuida os autores e a
sua escrita com uma atenção e um bom gosto que se evidenciam a partir
da capa. O papel é excelente e tem o cheiro do papel acabado de cortar.
Na capa e aqui e ali, os desenhos de Sérgio Ninguém, coordenador e editor.
De uma simplicidade que cativa. Isenta de brilhos desnecessários, convida à leitura.
Faz um ano em 12 de Julho, daqui a dias, aquando do lançamento do # 0.
Parabéns, Sérgio!  A longevidade desta revista é um orgulho para todos.
*
«O nome da revista foi inspirado na Deusa Grega Eufeme, que na mitologia grega é a deusa do discurso correcto. Filha de Aglaia e de Hefesto.
A Magazine Eufeme é uma publicação, que se rege por padrões bastantes singulares: – não tem fins lucrativos e sem qualquer ambição comercial.
Eufeme é uma publicação trimestral dedicada à poesia. Pretendendo ser um meio de expressão literária sem formalismos, escolas teóricas ou moldes comerciais de qualquer espécie.
Eufeme é poesia em estado puro!»

(Sérgio Ninguém)

*
(http://eufeme.weebly.com/)

EUFEME 4 CAPA EUFEME 4 contra-capa

Sabes, mãe, tenho saudades deste dia

Sabes, mãe, tenho saudades deste dia. Era terno e brilhante o teu olhar. Eu estava guardada, pequenina, no teu ventre e o que ouvia era já a canção das águas.
O Carlos, pequeno ainda, desconhecia que a vida traz solidão e com ela o silêncio, a partida.
Mãe, não sabias que a vida enfeitiça as pessoas que não têm carácter, aquelas que pintaram tristeza no teu rosto.
Mãe, porque partiram todos? Fiquei com esta foto de que me orgulho. Olho-a tantas vezes…
Mas é de ti, mãe, que falo. Partiste há 5 anos. Só hoje consegui chorar.
*
(19 Junho 1923 – 29 Junho 2012)

eu 2 (2)