NÃO SEI

Não sei se nasceste
para o que é excessivo.
Excedes o caminho
das horas,
alargas desmesuradamente
as palavras.
De que são feitas
as tuas noites?
Tão longas como as minhas…
ou tão ténues e breves
que não se chamam noites
e, quem sabe, tenham
perdido o significado e o leito…
Intervalos serão entre
o luar e o sol nascente,
momentos longos e brancos
como densas brumas
para te perderes?
Não sei se encontraste
as tuas estrelas…
Não sei se respiras paredes-meias
com o esquecimento e a solidão como
te ignoras, te escondes?
Talvez no final dos dias,
sem ventos, entre a liquidez dos olhares
me reencontres e digas
porque não te debruçaste
na janela para sentires o corpo,
porque não encontraste
a voz, a luz, o fruto
entre tantas palavras sem sabor…

5521-LILIA TAVARES

Óleo s/ tela, por ©Michael and Inessa Garmash (Ucrânia)

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[Volto sempre aqui]

Volto sempre aqui. Ao meu lugar de mim.
A serenidade pousa na rocha mais alta. No meu lugar.
O vento cresce na tarde e evoca a noite. No meu lugar.
O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia. No meu lugar.
O amanhã trará no colo uma braçada de flores.
O ar de alfazema deitar-se-á na minha cama.
Nos meus lugares espalhados.
Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.

5345-LILIA TAVARES----------------------------------------------

Fotografia de ©Ben Goossens

V

Em Alepo, ao colo do pai, na multidão, a menina
ergueu, suplicantes, os braços para o céu.
“Pai, onde estão as borboletas que entravam na janela?”
Na fila para a escassa refeição, andrajoso, um homem
sussurrou: “Para onde levaram a mulher que me devolveu
a esperança? De quem é o ventre da mulher com quem dormi?”
Em Alepo os seres estão envoltos nos véus cinzentos da solidão.

Não, em Alepo há muito que não se vêem borboletas.
Nem rosas. Nem crianças. Nem pais. Os laços apertam-se.
Todos são de cada um. Ali o sangue e a pele são de todos.
Como os caminhos, o pó e as lágrimas. O silêncio sem respostas

Expo-Teresin

Desenho de uma criança do gueto de Terezin , Rep. Checa

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IV

Em Alepo são folhas breves os homens.
Caminham e arrastam-se vacilantes.
São aves as súplicas, as mãos em sangue,
o coração frágil das mulheres, a memória
dos mortos e eternamente esquecidos.

Em Alepo ficam gestos por terminar,
carinhos perdidos por não haver mãos,
promessas incumpridas no tempo sem tempo.
Ausentaram-se da cidade os cantos, as crianças,
as rosas, as horas, as maçãs e o luar.

FOTO PARA POEMAS ALEPO (2)

Fotografia de autor desconhecido

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II

Em Alepo somos rios sem foz,
Mulheres desventradas e vazias,
inseguras, incapazes de ser flor.

Os olhos perderam-se já nos caminhos,
Ficaram a chorar pelas casas em ruínas
presos ao vazio e à morte dos amores.

Em Alepo choramos sem lágrimas.
É de pó este choro, de barro os murmúrios.
E de vidro quebrado o cansaço nos pés.

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Fotografia (dupla exposição) de ©Antonio Mora (Espanha)

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I

Em Alepo não se vêem árvores.
Corri aflita pelas ruas caídas e sem cor,
memórias soterradas de muitas manhãs.
Encontrei mulheres entrapadas e
crianças tolhidas de frio e de medos.

Ali, irmãs das pedras e dos paus,
duas crianças juntavam folhas de papel
amarrotadas, sujas, levadas pelo vento.
Dos bolsos tiravam restos de lápis.
Desconheciam que sobre a pedra onde
riscavam de sorriso aberto, nascia o verde
da única árvore possível em Alepo.

snapshot

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