II

Em Alepo somos rios sem foz,
Mulheres desventradas e vazias,
inseguras, incapazes de ser flor.

Os olhos perderam-se já nos caminhos,
Ficaram a chorar pelas casas em ruínas
presos ao vazio e à morte dos amores.

Em Alepo choramos sem lágrimas.
É de pó este choro, de barro os murmúrios.
E de vidro quebrado o cansaço nos pés.

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Fotografia (dupla exposição) de ©Antonio Mora (Espanha)

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I

Em Alepo não se vêem árvores.
Corri aflita pelas ruas caídas e sem cor,
memórias soterradas de muitas manhãs.
Encontrei mulheres entrapadas e
crianças tolhidas de frio e de medos.

Ali, irmãs das pedras e dos paus,
duas crianças juntavam folhas de papel
amarrotadas, sujas, levadas pelo vento.
Dos bolsos tiravam restos de lápis.
Desconheciam que sobre a pedra onde
riscavam de sorriso aberto, nascia o verde
da única árvore possível em Alepo.

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SINOS DO SILÊNCIO

É a noite que encontra na luz e nas sombras o curso sinuoso das águas.
Desdobra-se e multiplica-se para além dos azuis exactos das formas líquidas.
Aproxima-se e confunde-se com o céu, mas é nos corpos das árvores
e na exaltação do luar que a obscuridade se perde em danças.
Regressa com a madrugada para anunciar a manhã, pois ventos e águas forçam os alicerces e as margens do sonho.
Numa noite ainda sem tempo encontraremos juntos a sabedoria das chuvas.
O amor há-de tocar os sinos do silêncio e a generosidade nos nossos dedos a ponta do véu das nossas solidões. ´

5083-LILIA TAVARES

Óleo s/ tela, de ©Santiago Carbonell

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TANTO

Quero-te tanto e
penso tanto em ti
até adormecer esgotada
no quente leito.
Sem nome me chamas,
errante procuras o meu abrigo
nas lágrimas do alvorecer
e dentro das asas que partem
a cada silêncio teu.
Quando sentires que tudo se quebrou,
lembra-te que
estarei sempre que te sentires só.

*

4394-LILIA TAVARES------------------------------------------------------MULHER-MAR

Óleo s/ tela: Amy on Nantucket, de ©Doug Brega