V

Em Alepo, ao colo do pai, na multidão, a menina
ergueu, suplicantes, os braços para o céu.
“Pai, onde estão as borboletas que entravam na janela?”
Na fila para a escassa refeição, andrajoso, um homem
sussurrou: “Para onde levaram a mulher que me devolveu
a esperança? De quem é o ventre da mulher com quem dormi?”
Em Alepo os seres estão envoltos nos véus cinzentos da solidão.

Não, em Alepo há muito que não se vêem borboletas.
Nem rosas. Nem crianças. Nem pais. Os laços apertam-se.
Todos são de cada um. Ali o sangue e a pele são de todos.
Como os caminhos, o pó e as lágrimas. O silêncio sem respostas

Expo-Teresin

Desenho de uma criança do gueto de Terezin , Rep. Checa

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IV

Em Alepo são folhas breves os homens.
Caminham e arrastam-se vacilantes.
São aves as súplicas, as mãos em sangue,
o coração frágil das mulheres, a memória
dos mortos e eternamente esquecidos.

Em Alepo ficam gestos por terminar,
carinhos perdidos por não haver mãos,
promessas incumpridas no tempo sem tempo.
Ausentaram-se da cidade os cantos, as crianças,
as rosas, as horas, as maçãs e o luar.

FOTO PARA POEMAS ALEPO (2)

Fotografia de autor desconhecido

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