O mar só vive na fímbria da noite.

O mar só vive na fímbria da noite.
Respira, azul, na floração dos ventos.
Traz de volta o meu corpo que não
sobrevive ao sol. Caminha-me.
Ilumina-me com a trémula claridade
do teu quarto ainda vazio, sem rotas.

[excerto]
*
© Lília Tavares (a publicar)

Foto de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen.

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Era Noite

Era noite e desceu
o teu braço no meu
minha chama aqueceu
minha barca soprou
e o céu que chegou
foi a vida que quis
meu pequeno batel
no teu cais atracou
dá-me luz p’ra subir
p’ró meu corpo despir
minha alma molhada
na lareira enxugou e
na cama se achou.
Dá-me o lençol e a lã,
dá-me a pele e o sentir
meu cabelo tapou
a nudez que encontrou
no beiral da tua boca
como andorinha pousou.
Traz a areia e o mar,
minha casa, meu ser,
lava-me com as mãos
na leveza do querer.
Enche a barca, amor,
eu soluço e o pesar
deslaçou meu cordel
parte cedo o batel
prende a âncora fatal
firma o meu barco no teu
que o porto é pequeno
e o desejo navega
nestas águas, no rumor
do vento que acalma
o sussurro dos dedos
nossos olhos cerrados
as janelas do corpo
sem luz para habitar.
*
© Lília Tavares (a publicar)

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Ilustração de ©Kristin Vestgard

Queria saber escrever um poema de natal

Queria saber escrever um poema de natal.
Não estive lá, penso para mim.
Mas se tivesse estado e fosse uma pastorinha,
uma ovelha, um burrinho ou só o ar
para respirar…
Até podia ser uma criança, filha do hortelão
que fornecia a estalagem onde eu vi,
de olhos muito abertos, o hospedeiro muito apressado,
a desdenhar, pois então, do homem cansado
com o seu cajado a dirigir com cuidado.
Fechou-lhe a porta na cara e ali já pude ver
um burrito que levava sentada, uma linda
mulher jovem, sossegada, que sorria de ternura.
“É preciso encontrar lugar para eles”, pedi ao papá.
E ao ver uma estrela enorme como um sol,
pôs-me às costas para mostrar o carreiro
para a gruta, quase cabana, onde tomaram caminho.
Já à noitinha, o pai cortou umas couves, fez uma sopa
e levou, comigo na sua mão, para a gruta de Belém.
Onde estaria antes a criança que eu não vira?
Da sopa não pôde comer. “É um bebé”, disse o pai.
Dei-lhe um beijinho na testa, o soninho já chegava.
Sonhei numa noite só que aquele Menino a Quem
fecharam a porta, terá sempre o Seu coração aberto.
O papá explicou- e era só hortelão- que há dentro dEle
Amor que nunca será demais e que Se chama Jesus.
*

(deve ler-se com a entoação entusiasmada com que contaria
a história de natal a uma criança pequenina)

*

adoração do menino031.png-2
        Aguarela s/ papel Canson: Adoração do Menino. 31. ©Irene Gomes
*
in 
NÃO HAVIA LUGAR (e-book, vários autores, 2017)
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link: https://issuu.com/correiasepulveda/docs/n__o_havia_lugar__colect__nea_de_na