TARDE

A tarde é mais do que o pousar brando das aves e das borboletas.
Mais intensa que o rasto de uma gaivota no fio do horizonte
é o tempo de te ter entre os meus dedos. Partes. Silencio-me.


© Lília Tavares (a publicar)

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Fotografia de © Elsa Estrela

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A noite desceu as suas cortinas


A noite desceu as suas cortinas.
Deixou-se estar. Afinal, o dia terminava como todos os que ficaram para trás.
Recordava. As mãos macias no papel amarelo onde se sentiam as texturas do tempo.
Prometera não voltar a abrir. Prometera nem abrir a pequena gaveta que cheira a dias amarrotados. O azul da tinta já pálido, enterrou-se nos sulcos das letras. “Parece braille”, pensou.
Perdera-se a capa. Só eles sabiam (Maria achava que ele ainda sabia) a ternura das palavras escritas num caderno de linhas. Trinta anos. Tempo de vazios e cúmplices instantes de silêncio. Perdera a viagem para o sonho. A ilha para dois enamorados por palavras. Isla Negra ou Lanzarote. O mar, um par de mãos no vento, cabelos de sal. A cumplicidade de quem espera da vida carinho, horas sem fim, noites acesas, papéis, tinta, cartas, música concertada com a dança das ondas. A velha máquina de escrever tem desbotada a fita e a tecla do A encravou há muito. De tanto escrever mar, barco, amor, saudade, viagem…
O que parece não fazer sentido aceita-se como uma roupa que não se usou. Ajeitará o segundo botão da sua camisa enquanto ele apertará o último laço do seu vestido.

Sentem-se memórias. Sépia. Um livro por fechar com um pedaço de renda.
Acendeu uma vela quase ardida.
“E será sempre assim.”

*
© Lília Tavares (a publicar)

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Há mulheres que germinam entre flores.

Há mulheres que germinam entre flores. Nunca se interrogaram porquê. Possivelmente porque na sua concepção, a janela do quarto de uma mulher e de um homem que se amavam tivesse ficado aberta. Por ela entraram pólen e luar, envolvendo beijos, fecundando sonhos.
Em maio nascem estas meninas-mulheres. São rosadas. Os olhos têm cor indefinida, algures entre o violeta e o firmamento, têm a profundidade do gineceu de uma anémona.
Crescem num tempo que dificilmente condiz com o dos relógios. Trazem em si uma clepsidra oculta que conta gota a gota o tempo que levam até ao limbo do amor.
As suas mãos têm o toque aveludado das violetas. Vestem o olhar de miragens de campos de alfazemas onde encontram a calma nas tardes de sofrimento. Erguem-se como árvores carregadas de flores. Sentem-se glicínias e magnólias, mas dos seus ramos o vento não arrebata as folhas. Assolam o ímpeto dos outonos, abraçam todos os momentos em que foram felizes. São perenes e sobre abraços escrevem, como se estes as prendessem para sempre à vida. Sustentam-se de poesia e de ternuras. Saciam-se como as sementes que infinitamente lançaram à terra. Não são nem tudo nem nada porque ao seu lado ninguém se sentiu só na primavera.

(Para Alice Queiroz. Com saudade.)

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             Óleo s/ tela, de © Kristin Vestgard