COISAS

Sabe-me a pouco
este rumor de coisas pequenas
e simples.
O volume do barro,
o ciciar do vento nas folhas rubras,
a concavidade das grutas da falésia
onde o mar se demora.
As minhas mãos
não cabem na brancura
da nudez destas coisas que por serem ingénuas
só se chamam
coisas.

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              Fotografia de © Leszek Bujnowski.

Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

PARTO COM OS VENTOS - Cópia (2) - Cópia

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SEMPRE

Sempre me encantaram as janelas. Porque fechadas ocultam a intimidade de um quarto, de uma casa. Porque ali se aninharam sonhos, se enxugaram lágrimas, se encostaram lábios que embaciaram vidros em resultado das muitas esperas.

Abrem-se por vezes para se olhar o céu, molhar o rosto com os rios que as nuvens libertam, encher-me por dentro do ar do anoitecer e saudar com os braços e a alma aqueles por quem tanto se esperou.

Ah, aprendi há muito que devo cerrar os olhos e as cortinas da janela antes de ver partir no fim da rua, na margem do horizonte, aqueles de quem nunca me quero separar. São gotas de muitas águas, como eu. Levam e deixam a saudade agarrada às recordações, como velhas pontes de pedra que sabem de cor a melodia das manhãs…

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Janela, in Pinterest

Eufeme # 4: Jul- Set 2017

«(…) Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas…»

  (Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto)

Estamos numa época em que as revistas de Poesia se impõem pelo
número e diversidade. Desconheço se pela permanência e longa vida.
Conheci Eufeme  há cerca de uns 10 meses. Sem querer, atravessou-se
no meu caminho como uma nortada fresca. Li, informei-me, observei-a
em detalhe. A ela fiquei ligada com um cordão umbilical. Faz-me falta.
Revela-se como uma publicação que  selecciona, cuida os autores e a
sua escrita com uma atenção e um bom gosto que se evidenciam a partir
da capa. O papel é excelente e tem o cheiro do papel acabado de cortar.
Na capa e aqui e ali, os desenhos de Sérgio Ninguém, coordenador e editor.
De uma simplicidade que cativa. Isenta de brilhos desnecessários, convida à leitura.
Faz um ano em 12 de Julho, daqui a dias, aquando do lançamento do # 0.
Parabéns, Sérgio!  A longevidade desta revista é um orgulho para todos.
*
«O nome da revista foi inspirado na Deusa Grega Eufeme, que na mitologia grega é a deusa do discurso correcto. Filha de Aglaia e de Hefesto.
A Magazine Eufeme é uma publicação, que se rege por padrões bastantes singulares: – não tem fins lucrativos e sem qualquer ambição comercial.
Eufeme é uma publicação trimestral dedicada à poesia. Pretendendo ser um meio de expressão literária sem formalismos, escolas teóricas ou moldes comerciais de qualquer espécie.
Eufeme é poesia em estado puro!»

(Sérgio Ninguém)

*
(http://eufeme.weebly.com/)

EUFEME 4 CAPA EUFEME 4 contra-capa

Sabes, mãe, tenho saudades deste dia

Sabes, mãe, tenho saudades deste dia. Era terno e brilhante o teu olhar. Eu estava guardada, pequenina, no teu ventre e o que ouvia era já a canção das águas.
O Carlos, pequeno ainda, desconhecia que a vida traz solidão e com ela o silêncio, a partida.
Mãe, não sabias que a vida enfeitiça as pessoas que não têm carácter, aquelas que pintaram tristeza no teu rosto.
Mãe, porque partiram todos? Fiquei com esta foto de que me orgulho. Olho-a tantas vezes…
Mas é de ti, mãe, que falo. Partiste há 5 anos. Só hoje consegui chorar.
*
(19 Junho 1923 – 29 Junho 2012)

eu 2 (2)

FIM DE VERÃO (a publicar)

Guardei do verão os odores a laranjas e limões a saber a sol.
De mim, bom, de mim, não procurei saber o que ficou
antes de me aprontar para partir para longe das coisas
que sempre ficaram por dizer suspensas entre o ar e as lágrimas.
Não há estação disposta a aceitar a minha alma em desassossego
nem peito nem coração que abrigue a tristeza funda do existir.

Os olhos não vêem nem sentem porque habitam casas onde nunca estou.
Inquietação de quem não tem leito onde pousar a cabeça que não dorme,
pedregoso este trilho onde as árvores caminham a meu lado sem permissão.
Não quero aprisionar a lua para poder restaurar-me. Não valho nem um pouco
da privação de luar dos outros. Logo seria notícia. Apesar de fugir e esconder-me
na solidão, dariam ordem para executar quem guardou para si o luar como um amor proibido.

5649-LILIA TAVARES------------------------                                   summers-end-dorina-costras

Acrílico s/ tela: Summer’s end, de ©Dorina Costras, 2015

De Jorge C Ferreira

São magas, feiticeiras, fadas, artesãs da palavra e criadoras do belo. Algumas eternas Divas, outras Anjos de asas raras. São celestiais os seus voos, quer versem a solidão, o sofrimento, o erotismo, o sexo, o amor, a alegria, o que quer que seja.

Acredito que têm poderes especiais e vivem, enquanto escrevem, num mundo só seu. Acredito que têm visões e sentem os outros anjos que as vêm visitar. Têm lanças, velas, fumos, fogos, espadas e punhais e de tudo isso só retiram a beleza.

Por vezes perdem tempo sem fim na busca da palavra perfeita. Uma busca incessante. Um eterno desassossego.

São as belas poetisas do meu País. Lindas e corajosas mulheres. Muitas entre um verso e outro são donas de casa. Não acreditam? É verdade. Não vivem em pedestais, andam ao nosso lado na rua. Amam e beijam como nós.

A sorte que eu tenho de algumas serem minhas Amigas! Uma dádiva.

Vos beijo, Senhoras minhas, as vossas mãos.

EA 2017-148 (Reino de Valência) Jorge C Ferreira

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Óleo e técnica mista s/ tela, de ©Jeanie Tomanek (EUA)