Eufeme # 4: Jul- Set 2017

«(…) Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas…»

  (Sophia de Mello Breyner Andresen, in Livro Sexto)

Estamos numa época em que as revistas de Poesia se impõem pelo
número e diversidade. Desconheço se pela permanência e longa vida.
Conheci Eufeme  há cerca de uns 10 meses. Sem querer, atravessou-se
no meu caminho como uma nortada fresca. Li, informei-me, observei-a
em detalhe. A ela fiquei ligada com um cordão umbilical. Faz-me falta.
Revela-se como uma publicação que  selecciona, cuida os autores e a
sua escrita com uma atenção e um bom gosto que se evidenciam a partir
da capa. O papel é excelente e tem o cheiro do papel acabado de cortar.
Na capa e aqui e ali, os desenhos de Sérgio Ninguém, coordenador e editor.
De uma simplicidade que cativa. Isenta de brilhos desnecessários, convida à leitura.
Faz um ano em 12 de Julho, daqui a dias, aquando do lançamento do # 0.
Parabéns, Sérgio!  A longevidade desta revista é um orgulho para todos.
*
«O nome da revista foi inspirado na Deusa Grega Eufeme, que na mitologia grega é a deusa do discurso correcto. Filha de Aglaia e de Hefesto.
A Magazine Eufeme é uma publicação, que se rege por padrões bastantes singulares: – não tem fins lucrativos e sem qualquer ambição comercial.
Eufeme é uma publicação trimestral dedicada à poesia. Pretendendo ser um meio de expressão literária sem formalismos, escolas teóricas ou moldes comerciais de qualquer espécie.
Eufeme é poesia em estado puro!»

(Sérgio Ninguém)

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(http://eufeme.weebly.com/)

EUFEME 4 CAPA EUFEME 4 contra-capa

Sabes, mãe, tenho saudades deste dia

Sabes, mãe, tenho saudades deste dia. Era terno e brilhante o teu olhar. Eu estava guardada, pequenina, no teu ventre e o que ouvia era já a canção das águas.
O Carlos, pequeno ainda, desconhecia que a vida traz solidão e com ela o silêncio, a partida.
Mãe, não sabias que a vida enfeitiça as pessoas que não têm carácter, aquelas que pintaram tristeza no teu rosto.
Mãe, porque partiram todos? Fiquei com esta foto de que me orgulho. Olho-a tantas vezes…
Mas é de ti, mãe, que falo. Partiste há 5 anos. Só hoje consegui chorar.
*
(19 Junho 1923 – 29 Junho 2012)

eu 2 (2)

De Jorge C Ferreira

São magas, feiticeiras, fadas, artesãs da palavra e criadoras do belo. Algumas eternas Divas, outras Anjos de asas raras. São celestiais os seus voos, quer versem a solidão, o sofrimento, o erotismo, o sexo, o amor, a alegria, o que quer que seja.

Acredito que têm poderes especiais e vivem, enquanto escrevem, num mundo só seu. Acredito que têm visões e sentem os outros anjos que as vêm visitar. Têm lanças, velas, fumos, fogos, espadas e punhais e de tudo isso só retiram a beleza.

Por vezes perdem tempo sem fim na busca da palavra perfeita. Uma busca incessante. Um eterno desassossego.

São as belas poetisas do meu País. Lindas e corajosas mulheres. Muitas entre um verso e outro são donas de casa. Não acreditam? É verdade. Não vivem em pedestais, andam ao nosso lado na rua. Amam e beijam como nós.

A sorte que eu tenho de algumas serem minhas Amigas! Uma dádiva.

Vos beijo, Senhoras minhas, as vossas mãos.

EA 2017-148 (Reino de Valência) Jorge C Ferreira

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Óleo e técnica mista s/ tela, de ©Jeanie Tomanek (EUA)

O GUARDADOR DE SILÊNCIOS (excerto)

A Bernardo Sassetti

Sim, oiço e amo ainda os silêncios.
(…)
Escreveste nas pautas segredos:
os sonhos parecem só dos outros.
Como Alice.
Não trouxeste Alice do outro lado?
Afinal ela podia ter sido a Menina no piano.
(…)
Sabes, nos teus dedos irrequietos
Sempre se sentaram anjos em paixão.
Era dos pulos que riam sempre. As mãos
acariciavam como o vento um carrossel.
.
Fazes-me falta. Partiste ainda rapaz.
Doem-me as partituras que têm o pó da saudade.
Dói-me esta ausência irremediavelmente
silenciosa e doce que é criança inquieta.
.
Por ti. Pelo chamamento do mar, eu choro.
Pela ilusão que não guardaste para ti.
-todos temos direito ao sonho! –
Por mim. Quando tocas silêncios e noites.
É na brandura dos teus olhos que agora
me perco à espera da resposta rouca do mar
que ainda guarda numa gruta as tuas lágrimas.

(a publicar)

4771-LILIA TAVARES-sassetti

https://www.youtube.com/watch?v=XfCzfn89W18

«Eu sei que não se ama sozinho»

Há muito que revelo o meu apoio a Salvador Sobral, não só como concorrente português ao festival, mas sobretudo enquanto representante de uma camada de jovens músicos  que não se pautam pelos cânones estereotipados e rígidos  da ‘fórmula’  que os levaria a ser ‘artistas  reconhecidos’. Antes não se envergonham do amor, do gosto e da entrega com que se expressam e cantam.

É de surpreender o rápido, numeroso e sonoro apoio que Salvador Sobral suscitou nos portugueses de todas as idades. É um jovem raro, talentoso, sensível, espontâneo, culto e de uma imensa profundidade.
Com uma aparente ingenuidade que cativa, Salvador não teme levantar o véu da sua essência. É um jovem de causas, fomentador do bem. Li de uma amiga que ele é um ‘menino-poema’. Concordo e subscrevo esta adjectivação.

Não me parece que me venha a desapontar sendo vaidoso, arrogante e inadequado. O que temo é o embate corrosivo de invejas que proliferam neste mundo-cão das artes e da música (e não só), de ‘pseudo-estrelas’  de pouca qualidade,  preguiçosos,  ‘salvos’ pelo aparato cénico e pela muita maquilhagem.
Salvador pode tornar-se presa ‘fácil’ de abutres que o queiram pisar e enxovalhar, mas tem ao seu lado e do seu lado a mana, uma jovem mulher que sabe onde repousar a sua cabeça. Luísa tem a seu favor um maior traquejo para lidar com a frustração. Salvador é essência em estado puro. Tem a generosidade congénita dos poetas e amor a mais num coração de pássaro.

Que o teu voo seja leve e suave como a tua presença que tece fios numa teia que nos faz sentir orgulhosos, mais fortes e felizes enquanto povo.

«Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

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VIDA, UMA BIBLIOTECA DO TEMPO

Não sei dizer a razão, mas senti um arrepio quando estava a postar em ‘Quem lê Sophia’ uma foto com a notícia da partida do jornalista e autor Baptista-Bastos. Fiz scroll na Página e fixei o meu olhar na alegria do rosto transparente de Salvador Sobral que canta dentro de um par de horas em Kiev.

O cantor afirmou ontem: «Se eu morrer amanhã (hoje), morrerei muito feliz».

Não sei se BB morreu feliz. Sei que apesar de apreensivo e ansioso, Salvador sente-se feliz neste momento. Disto ninguém parece ter dúvidas.

BB e Salvador são hoje os personagens da Página que ajudo a manter de pé pela Poesia e pela Língua Portuguesa. Ambos, à sua maneira, com os seus talentos e trabalho, e no seu tempo também têm vivido para dignificar as boas coisas que a pátria de Camões e Pessoa constrói e oferece.

Mas foi por sentir esta simultaneidade, o arrepio do imprevisível que me deu para escrever umas linhas. Um universo pensante e actuante, do bem e do mal, sempre em conflito gira à nossa volta como ‘anéis de Saturno’. Difícil é atingirmos o silêncio, o nada, o vazio que nos descansa. A vida é nascer, fazer sentido, viver ao limite, deixar pegadas no solo, no papel, nos livros, nos riscos e borrões. É também cuidar e dar liberdade a quem nos foi confiado para amar e fazer crescer. E o sofrimento? O êxtase, a paixão, o perigo, as alturas, as tempestades? E o riso, o sufoco, os murmúrios e as lágrimas? Onde cabem o desânimo e o êxito, o castigo e o troféu?

Salvador Sobral e Baptista-Bastos são ainda os ‘actores’ do meu dia, como personagens de histórias em dois livros encostados um ao outro na mesma prateleira. Quantos ‘livros’ vivemos ao mesmo tempo? De olhos arregalados e sedentos de vida. Quantos de nós, sem tempo para colocar um marca-páginas, dobra ligeiramente a folha para passar a outra narrativa na esperança de voltar ao enredo em que ficou.

Morremos de tanta vida que contemos. Morremos de amor, como escreveu BB. Ou morremos de tanta felicidade, como disse o Salvador.

Mas os livros nos quais sou personagem continuam a ser escritos, lidos, sublinhados, marcados, abandonados e repegados. E tantos livros a serem sorvidos no mesmo instante, no sumiço do tudo que parece nada.

Talvez a vida seja uma biblioteca do tempo.

folha dobrada