SEMPRE

Sempre me encantaram as janelas. Porque fechadas ocultam a intimidade de um quarto, de uma casa. Porque ali se aninharam sonhos, se enxugaram lágrimas, se encostaram lábios que embaciaram vidros em resultado das muitas esperas.

Abrem-se por vezes para se olhar o céu, molhar o rosto com os rios que as nuvens libertam, encher-me por dentro do ar do anoitecer e saudar com os braços e a alma aqueles por quem tanto se esperou.

Ah, aprendi há muito que devo cerrar os olhos e as cortinas da janela antes de ver partir no fim da rua, na margem do horizonte, aqueles de quem nunca me quero separar. São gotas de muitas águas, como eu. Levam e deixam a saudade agarrada às recordações, como velhas pontes de pedra que sabem de cor a melodia das manhãs…

4261-LILIA TAVARES-11892198_1120410114639229_529686758923125883_n

Janela, in Pinterest

FIM DE VERÃO (a publicar)

Guardei do verão os odores a laranjas e limões a saber a sol.
De mim, bom, de mim, não procurei saber o que ficou
antes de me aprontar para partir para longe das coisas
que sempre ficaram por dizer suspensas entre o ar e as lágrimas.
Não há estação disposta a aceitar a minha alma em desassossego
nem peito nem coração que abrigue a tristeza funda do existir.

Os olhos não vêem nem sentem porque habitam casas onde nunca estou.
Inquietação de quem não tem leito onde pousar a cabeça que não dorme,
pedregoso este trilho onde as árvores caminham a meu lado sem permissão.
Não quero aprisionar a lua para poder restaurar-me. Não valho nem um pouco
da privação de luar dos outros. Logo seria notícia. Apesar de fugir e esconder-me
na solidão, dariam ordem para executar quem guardou para si o luar como um amor proibido.

5649-LILIA TAVARES------------------------                                   summers-end-dorina-costras

Acrílico s/ tela: Summer’s end, de ©Dorina Costras, 2015

CAMINHO

Caminho
E os meus passos ouvem o chão
Caminho largo,
Chão e
Álcool verde de árvores.

.

A copa verde aliás
Cobre o omnipotente sol
E vultos há sem paradeiro
E sombras.

.

Encosto o ouvido à terra
E oiço variações
Como bagos de uvas
Que espremo.

.

Há um lençol de folhagem
Vivo e seco
E há um sino que oiço
Em cada pedra atenta.
Surgem troncos
Cortados por machados que não vejo
E cortam-me o caminho.

.

Frémitos.
O vento limpa o ultimo
Orvalho líquido
E, entre duas árvores,
A imagem dum abraço que se aperta.

.

Luz que parece encadear
O ritmo desta serenidade a assolar-me
A alma e eu quero a
Poluição para vestir
Negra para ter de provar
Agora a ausência convertida
Em terra.

(21-11-1976)

*
Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares
l-35742-v_0010_t24-C-R0150    l-35742-v_0011_t24-C-R0150 

   5616-LILIA DA SILVA-12321249_598414740324885_2181658878434792320_n     

Óleo s/ tela, de ©Sérgio Ribeiro (Galiza, Espanha)    

MÃE BRISA

Como uma brisa de vento
passaste pelas minhas manhãs.
Era de mar o cheiro que trazias contigo,
de lágrimas e serenidade ocultas
o colo onde permaneci como raio de sol
em dia de nevoeiro.
Neblinas que as ondas trouxeram
foram os braços com que me acolheste.
Lamento, mãe, a torre de Babel que foram os nossos dias
e o silêncio cinzento da tua ausência.
Mas todas as memórias têm a sua metade de esquecimento,
outra metade de amor.
Ainda sou o búzio e as conchas do nosso areal.
As gaivotas levaram gritos porque a praia não tem nome
mas ainda recorda os teus passos na areia enquanto o sol nascia…

3189-LILIA TAVARES-mama_claudia tremblay 94

Ilustração: Mama, por ©Cláudia Tremblay

FUSÃO CREPUSCULAR

Aqui onde fico
-Viva onomatopeia-
Há mais do que o silêncio de
Um grito agudo
Que rasga o peito
E corta a tarde agora sufocada.
Quando no crepúsculo
Amadurece o dia
Busco no horizonte
O corpo celeste como um fruto
Tardio.
É o sol que adormece
Num adeus breve
De céu cada vez mais vermelho.
Cores suportam o sol que desliza
Na abóbada que segura a tarde
De um poema líquido.
Líquida também eu fico
A transbordar por fora a
Minha canção salgada.
O dia cedeu agora à noite:
Nos outros a monotonia parece igual.
Para mim, o sol morreu até nova manhã
A sombra cobriu tudo ao redor.
Fresca. No poente de solidão,
Um sol de velas rápidas.

(27-05-1978)

*

Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares

5605-LILIA TAVARES[3]

Tela de © Jeanie Tomanek

NÃO SEI

Não sei se nasceste
para o que é excessivo.
Excedes o caminho
das horas,
alargas desmesuradamente
as palavras.
De que são feitas
as tuas noites?
Tão longas como as minhas…
ou tão ténues e breves
que não se chamam noites
e, quem sabe, tenham
perdido o significado e o leito…
Intervalos serão entre
o luar e o sol nascente,
momentos longos e brancos
como densas brumas
para te perderes?
Não sei se encontraste
as tuas estrelas…
Não sei se respiras paredes-meias
com o esquecimento e a solidão como
te ignoras, te escondes?
Talvez no final dos dias,
sem ventos, entre a liquidez dos olhares
me reencontres e digas
porque não te debruçaste
na janela para sentires o corpo,
porque não encontraste
a voz, a luz, o fruto
entre tantas palavras sem sabor…

5521-LILIA TAVARES

Óleo s/ tela, por ©Michael and Inessa Garmash (Ucrânia)

Guardar