Não tenho medo de sonhos adiados


Não tenho medo de sonhos adiados.
Sinto saudade dos momentos futuros, desejo trazê-los
até mim para que guardem corpo, pele, mãos, desejo,
saciedade….
Somos duas páginas desencontradas neste momento,
desejosas de juntar palavras…

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Técnica mista s/ tela: Summer road, por © Mae Chevrette
*
Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

PARTO COM OS VENTOS - Cópia (2) - Cópia

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OUVE-ME

Ouve-me: preciso de um amigo que abane o (meu) mundo.
Não sei se escutaste bem: tem de ter um coração de ave,
mas o seu grito contra o mal tem de ser forte como trovão.
Se eu cair, há-de levantar-me como se eu fosse pluma.
Soprará nas minhas feridas e a minha dor passará como nuvem.
Sempre quis um amigo assim.
Quando a solidão me fechava num quarto, ele abria janelas.
Se as lágrimas rolavam porque alguém partira, bebia-as como licor.
Sabia que voltava para o seu país quando há muito os meus olhos dormiam.
Disse-me num por do sol que chegaria um dia em que eu não daria pela sua ausência.
Ficaria a vigiar-me do seu país e daria recomendações às estrelas, à lua e aos peixes.
Faltou uma manhã e não mais voltou.

*
1) ‘Ouve-me’ integrou o conjunto de poemas ditos por José Proença Carvalho em ‘Principezinho’ JFLumiar, 2016-17)

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Arte de © André Britz

COISAS

Sabe-me a pouco
este rumor de coisas pequenas
e simples.
O volume do barro,
o ciciar do vento nas folhas rubras,
a concavidade das grutas da falésia
onde o mar se demora.
As minhas mãos
não cabem na brancura
da nudez destas coisas que por serem ingénuas
só se chamam
coisas.

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              Fotografia de © Leszek Bujnowski.

Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

PARTO COM OS VENTOS - Cópia (2) - Cópia

SEMPRE

Sempre me encantaram as janelas. Porque fechadas ocultam a intimidade de um quarto, de uma casa. Porque ali se aninharam sonhos, se enxugaram lágrimas, se encostaram lábios que embaciaram vidros em resultado das muitas esperas.

Abrem-se por vezes para se olhar o céu, molhar o rosto com os rios que as nuvens libertam, encher-me por dentro do ar do anoitecer e saudar com os braços e a alma aqueles por quem tanto se esperou.

Ah, aprendi há muito que devo cerrar os olhos e as cortinas da janela antes de ver partir no fim da rua, na margem do horizonte, aqueles de quem nunca me quero separar. São gotas de muitas águas, como eu. Levam e deixam a saudade agarrada às recordações, como velhas pontes de pedra que sabem de cor a melodia das manhãs…

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Janela, in Pinterest

FIM DE VERÃO (a publicar)

Guardei do verão os odores a laranjas e limões a saber a sol.
De mim, bom, de mim, não procurei saber o que ficou
antes de me aprontar para partir para longe das coisas
que sempre ficaram por dizer suspensas entre o ar e as lágrimas.
Não há estação disposta a aceitar a minha alma em desassossego
nem peito nem coração que abrigue a tristeza funda do existir.

Os olhos não vêem nem sentem porque habitam casas onde nunca estou.
Inquietação de quem não tem leito onde pousar a cabeça que não dorme,
pedregoso este trilho onde as árvores caminham a meu lado sem permissão.
Não quero aprisionar a lua para poder restaurar-me. Não valho nem um pouco
da privação de luar dos outros. Logo seria notícia. Apesar de fugir e esconder-me
na solidão, dariam ordem para executar quem guardou para si o luar como um amor proibido.

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Acrílico s/ tela: Summer’s end, de ©Dorina Costras, 2015