COISAS

Sabe-me a pouco
este rumor de coisas pequenas
e simples.
O volume do barro,
o ciciar do vento nas folhas rubras,
a concavidade das grutas da falésia
onde o mar se demora.
As minhas mãos
não cabem na brancura
da nudez destas coisas que por serem ingénuas
só se chamam
coisas.

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              Fotografia de © Leszek Bujnowski.

Lília Tavares, in PARTO COM OS VENTOS (Kreamus, 2013)

PARTO COM OS VENTOS - Cópia (2) - Cópia

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SEMPRE

Sempre me encantaram as janelas. Porque fechadas ocultam a intimidade de um quarto, de uma casa. Porque ali se aninharam sonhos, se enxugaram lágrimas, se encostaram lábios que embaciaram vidros em resultado das muitas esperas.

Abrem-se por vezes para se olhar o céu, molhar o rosto com os rios que as nuvens libertam, encher-me por dentro do ar do anoitecer e saudar com os braços e a alma aqueles por quem tanto se esperou.

Ah, aprendi há muito que devo cerrar os olhos e as cortinas da janela antes de ver partir no fim da rua, na margem do horizonte, aqueles de quem nunca me quero separar. São gotas de muitas águas, como eu. Levam e deixam a saudade agarrada às recordações, como velhas pontes de pedra que sabem de cor a melodia das manhãs…

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Janela, in Pinterest

FIM DE VERÃO (a publicar)

Guardei do verão os odores a laranjas e limões a saber a sol.
De mim, bom, de mim, não procurei saber o que ficou
antes de me aprontar para partir para longe das coisas
que sempre ficaram por dizer suspensas entre o ar e as lágrimas.
Não há estação disposta a aceitar a minha alma em desassossego
nem peito nem coração que abrigue a tristeza funda do existir.

Os olhos não vêem nem sentem porque habitam casas onde nunca estou.
Inquietação de quem não tem leito onde pousar a cabeça que não dorme,
pedregoso este trilho onde as árvores caminham a meu lado sem permissão.
Não quero aprisionar a lua para poder restaurar-me. Não valho nem um pouco
da privação de luar dos outros. Logo seria notícia. Apesar de fugir e esconder-me
na solidão, dariam ordem para executar quem guardou para si o luar como um amor proibido.

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Acrílico s/ tela: Summer’s end, de ©Dorina Costras, 2015

CAMINHO

Caminho
E os meus passos ouvem o chão
Caminho largo,
Chão e
Álcool verde de árvores.

.

A copa verde aliás
Cobre o omnipotente sol
E vultos há sem paradeiro
E sombras.

.

Encosto o ouvido à terra
E oiço variações
Como bagos de uvas
Que espremo.

.

Há um lençol de folhagem
Vivo e seco
E há um sino que oiço
Em cada pedra atenta.
Surgem troncos
Cortados por machados que não vejo
E cortam-me o caminho.

.

Frémitos.
O vento limpa o ultimo
Orvalho líquido
E, entre duas árvores,
A imagem dum abraço que se aperta.

.

Luz que parece encadear
O ritmo desta serenidade a assolar-me
A alma e eu quero a
Poluição para vestir
Negra para ter de provar
Agora a ausência convertida
Em terra.

(21-11-1976)

*
Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares
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Óleo s/ tela, de ©Sérgio Ribeiro (Galiza, Espanha)