CAMINHO

Caminho
E os meus passos ouvem o chão
Caminho largo,
Chão e
Álcool verde de árvores.

.

A copa verde aliás
Cobre o omnipotente sol
E vultos há sem paradeiro
E sombras.

.

Encosto o ouvido à terra
E oiço variações
Como bagos de uvas
Que espremo.

.

Há um lençol de folhagem
Vivo e seco
E há um sino que oiço
Em cada pedra atenta.
Surgem troncos
Cortados por machados que não vejo
E cortam-me o caminho.

.

Frémitos.
O vento limpa o ultimo
Orvalho líquido
E, entre duas árvores,
A imagem dum abraço que se aperta.

.

Luz que parece encadear
O ritmo desta serenidade a assolar-me
A alma e eu quero a
Poluição para vestir
Negra para ter de provar
Agora a ausência convertida
Em terra.

(21-11-1976)

*
Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares
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Óleo s/ tela, de ©Sérgio Ribeiro (Galiza, Espanha)    

VIDA, UMA BIBLIOTECA DO TEMPO

Não sei dizer a razão, mas senti um arrepio quando estava a postar em ‘Quem lê Sophia’ uma foto com a notícia da partida do jornalista e autor Baptista-Bastos. Fiz scroll na Página e fixei o meu olhar na alegria do rosto transparente de Salvador Sobral que canta dentro de um par de horas em Kiev.

O cantor afirmou ontem: «Se eu morrer amanhã (hoje), morrerei muito feliz».

Não sei se BB morreu feliz. Sei que apesar de apreensivo e ansioso, Salvador sente-se feliz neste momento. Disto ninguém parece ter dúvidas.

BB e Salvador são hoje os personagens da Página que ajudo a manter de pé pela Poesia e pela Língua Portuguesa. Ambos, à sua maneira, com os seus talentos e trabalho, e no seu tempo também têm vivido para dignificar as boas coisas que a pátria de Camões e Pessoa constrói e oferece.

Mas foi por sentir esta simultaneidade, o arrepio do imprevisível que me deu para escrever umas linhas. Um universo pensante e actuante, do bem e do mal, sempre em conflito gira à nossa volta como ‘anéis de Saturno’. Difícil é atingirmos o silêncio, o nada, o vazio que nos descansa. A vida é nascer, fazer sentido, viver ao limite, deixar pegadas no solo, no papel, nos livros, nos riscos e borrões. É também cuidar e dar liberdade a quem nos foi confiado para amar e fazer crescer. E o sofrimento? O êxtase, a paixão, o perigo, as alturas, as tempestades? E o riso, o sufoco, os murmúrios e as lágrimas? Onde cabem o desânimo e o êxito, o castigo e o troféu?

Salvador Sobral e Baptista-Bastos são ainda os ‘actores’ do meu dia, como personagens de histórias em dois livros encostados um ao outro na mesma prateleira. Quantos ‘livros’ vivemos ao mesmo tempo? De olhos arregalados e sedentos de vida. Quantos de nós, sem tempo para colocar um marca-páginas, dobra ligeiramente a folha para passar a outra narrativa na esperança de voltar ao enredo em que ficou.

Morremos de tanta vida que contemos. Morremos de amor, como escreveu BB. Ou morremos de tanta felicidade, como disse o Salvador.

Mas os livros nos quais sou personagem continuam a ser escritos, lidos, sublinhados, marcados, abandonados e repegados. E tantos livros a serem sorvidos no mesmo instante, no sumiço do tudo que parece nada.

Talvez a vida seja uma biblioteca do tempo.

folha dobrada

MÃE BRISA

Como uma brisa de vento
passaste pelas minhas manhãs.
Era de mar o cheiro que trazias contigo,
de lágrimas e serenidade ocultas
o colo onde permaneci como raio de sol
em dia de nevoeiro.
Neblinas que as ondas trouxeram
foram os braços com que me acolheste.
Lamento, mãe, a torre de Babel que foram os nossos dias
e o silêncio cinzento da tua ausência.
Mas todas as memórias têm a sua metade de esquecimento,
outra metade de amor.
Ainda sou o búzio e as conchas do nosso areal.
As gaivotas levaram gritos porque a praia não tem nome
mas ainda recorda os teus passos na areia enquanto o sol nascia…

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Ilustração: Mama, por ©Cláudia Tremblay

FUSÃO CREPUSCULAR

Aqui onde fico
-Viva onomatopeia-
Há mais do que o silêncio de
Um grito agudo
Que rasga o peito
E corta a tarde agora sufocada.
Quando no crepúsculo
Amadurece o dia
Busco no horizonte
O corpo celeste como um fruto
Tardio.
É o sol que adormece
Num adeus breve
De céu cada vez mais vermelho.
Cores suportam o sol que desliza
Na abóbada que segura a tarde
De um poema líquido.
Líquida também eu fico
A transbordar por fora a
Minha canção salgada.
O dia cedeu agora à noite:
Nos outros a monotonia parece igual.
Para mim, o sol morreu até nova manhã
A sombra cobriu tudo ao redor.
Fresca. No poente de solidão,
Um sol de velas rápidas.

(27-05-1978)

*

Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares

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Tela de © Jeanie Tomanek

NÃO SEI

Não sei se nasceste
para o que é excessivo.
Excedes o caminho
das horas,
alargas desmesuradamente
as palavras.
De que são feitas
as tuas noites?
Tão longas como as minhas…
ou tão ténues e breves
que não se chamam noites
e, quem sabe, tenham
perdido o significado e o leito…
Intervalos serão entre
o luar e o sol nascente,
momentos longos e brancos
como densas brumas
para te perderes?
Não sei se encontraste
as tuas estrelas…
Não sei se respiras paredes-meias
com o esquecimento e a solidão como
te ignoras, te escondes?
Talvez no final dos dias,
sem ventos, entre a liquidez dos olhares
me reencontres e digas
porque não te debruçaste
na janela para sentires o corpo,
porque não encontraste
a voz, a luz, o fruto
entre tantas palavras sem sabor…

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Óleo s/ tela, por ©Michael and Inessa Garmash (Ucrânia)

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[Volto sempre aqui]

Volto sempre aqui. Ao meu lugar de mim.
A serenidade pousa na rocha mais alta. No meu lugar.
O vento cresce na tarde e evoca a noite. No meu lugar.
O amanhecer despe a noite como uma camisa de cambraia. No meu lugar.
O amanhã trará no colo uma braçada de flores.
O ar de alfazema deitar-se-á na minha cama.
Nos meus lugares espalhados.
Em partículas de mim. Eu. O outro nome da noite.

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Fotografia de ©Ben Goossens

V

Em Alepo, ao colo do pai, na multidão, a menina
ergueu, suplicantes, os braços para o céu.
“Pai, onde estão as borboletas que entravam na janela?”
Na fila para a escassa refeição, andrajoso, um homem
sussurrou: “Para onde levaram a mulher que me devolveu
a esperança? De quem é o ventre da mulher com quem dormi?”
Em Alepo os seres estão envoltos nos véus cinzentos da solidão.

Não, em Alepo há muito que não se vêem borboletas.
Nem rosas. Nem crianças. Nem pais. Os laços apertam-se.
Todos são de cada um. Ali o sangue e a pele são de todos.
Como os caminhos, o pó e as lágrimas. O silêncio sem respostas

Expo-Teresin

Desenho de uma criança do gueto de Terezin , Rep. Checa

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IV

Em Alepo são folhas breves os homens.
Caminham e arrastam-se vacilantes.
São aves as súplicas, as mãos em sangue,
o coração frágil das mulheres, a memória
dos mortos e eternamente esquecidos.

Em Alepo ficam gestos por terminar,
carinhos perdidos por não haver mãos,
promessas incumpridas no tempo sem tempo.
Ausentaram-se da cidade os cantos, as crianças,
as rosas, as horas, as maçãs e o luar.

FOTO PARA POEMAS ALEPO (2)

Fotografia de autor desconhecido

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