CAMINHO

Caminho
E os meus passos ouvem o chão
Caminho largo,
Chão e
Álcool verde de árvores.

.

A copa verde aliás
Cobre o omnipotente sol
E vultos há sem paradeiro
E sombras.

.

Encosto o ouvido à terra
E oiço variações
Como bagos de uvas
Que espremo.

.

Há um lençol de folhagem
Vivo e seco
E há um sino que oiço
Em cada pedra atenta.
Surgem troncos
Cortados por machados que não vejo
E cortam-me o caminho.

.

Frémitos.
O vento limpa o ultimo
Orvalho líquido
E, entre duas árvores,
A imagem dum abraço que se aperta.

.

Luz que parece encadear
O ritmo desta serenidade a assolar-me
A alma e eu quero a
Poluição para vestir
Negra para ter de provar
Agora a ausência convertida
Em terra.

(21-11-1976)

*
Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares
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Óleo s/ tela, de ©Sérgio Ribeiro (Galiza, Espanha)    

FUSÃO CREPUSCULAR

Aqui onde fico
-Viva onomatopeia-
Há mais do que o silêncio de
Um grito agudo
Que rasga o peito
E corta a tarde agora sufocada.
Quando no crepúsculo
Amadurece o dia
Busco no horizonte
O corpo celeste como um fruto
Tardio.
É o sol que adormece
Num adeus breve
De céu cada vez mais vermelho.
Cores suportam o sol que desliza
Na abóbada que segura a tarde
De um poema líquido.
Líquida também eu fico
A transbordar por fora a
Minha canção salgada.
O dia cedeu agora à noite:
Nos outros a monotonia parece igual.
Para mim, o sol morreu até nova manhã
A sombra cobriu tudo ao redor.
Fresca. No poente de solidão,
Um sol de velas rápidas.

(27-05-1978)

*

Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares

5605-LILIA TAVARES[3]

Tela de © Jeanie Tomanek