SEMPRE

Sempre me encantaram as janelas. Porque fechadas ocultam a intimidade de um quarto, de uma casa. Porque ali se aninharam sonhos, se enxugaram lágrimas, se encostaram lábios que embaciaram vidros em resultado das muitas esperas.

Abrem-se por vezes para se olhar o céu, molhar o rosto com os rios que as nuvens libertam, encher-me por dentro do ar do anoitecer e saudar com os braços e a alma aqueles por quem tanto se esperou.

Ah, aprendi há muito que devo cerrar os olhos e as cortinas da janela antes de ver partir no fim da rua, na margem do horizonte, aqueles de quem nunca me quero separar. São gotas de muitas águas, como eu. Levam e deixam a saudade agarrada às recordações, como velhas pontes de pedra que sabem de cor a melodia das manhãs…

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Janela, in Pinterest

MÃE BRISA

Como uma brisa de vento
passaste pelas minhas manhãs.
Era de mar o cheiro que trazias contigo,
de lágrimas e serenidade ocultas
o colo onde permaneci como raio de sol
em dia de nevoeiro.
Neblinas que as ondas trouxeram
foram os braços com que me acolheste.
Lamento, mãe, a torre de Babel que foram os nossos dias
e o silêncio cinzento da tua ausência.
Mas todas as memórias têm a sua metade de esquecimento,
outra metade de amor.
Ainda sou o búzio e as conchas do nosso areal.
As gaivotas levaram gritos porque a praia não tem nome
mas ainda recorda os teus passos na areia enquanto o sol nascia…

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Ilustração: Mama, por ©Cláudia Tremblay

TANTO

Quero-te tanto e
penso tanto em ti
até adormecer esgotada
no quente leito.
Sem nome me chamas,
errante procuras o meu abrigo
nas lágrimas do alvorecer
e dentro das asas que partem
a cada silêncio teu.
Quando sentires que tudo se quebrou,
lembra-te que
estarei sempre que te sentires só.

*

4394-LILIA TAVARES------------------------------------------------------MULHER-MAR

Óleo s/ tela: Amy on Nantucket, de ©Doug Brega