VIDA, UMA BIBLIOTECA DO TEMPO

Não sei dizer a razão, mas senti um arrepio quando estava a postar em ‘Quem lê Sophia’ uma foto com a notícia da partida do jornalista e autor Baptista-Bastos. Fiz scroll na Página e fixei o meu olhar na alegria do rosto transparente de Salvador Sobral que canta dentro de um par de horas em Kiev.

O cantor afirmou ontem: «Se eu morrer amanhã (hoje), morrerei muito feliz».

Não sei se BB morreu feliz. Sei que apesar de apreensivo e ansioso, Salvador sente-se feliz neste momento. Disto ninguém parece ter dúvidas.

BB e Salvador são hoje os personagens da Página que ajudo a manter de pé pela Poesia e pela Língua Portuguesa. Ambos, à sua maneira, com os seus talentos e trabalho, e no seu tempo também têm vivido para dignificar as boas coisas que a pátria de Camões e Pessoa constrói e oferece.

Mas foi por sentir esta simultaneidade, o arrepio do imprevisível que me deu para escrever umas linhas. Um universo pensante e actuante, do bem e do mal, sempre em conflito gira à nossa volta como ‘anéis de Saturno’. Difícil é atingirmos o silêncio, o nada, o vazio que nos descansa. A vida é nascer, fazer sentido, viver ao limite, deixar pegadas no solo, no papel, nos livros, nos riscos e borrões. É também cuidar e dar liberdade a quem nos foi confiado para amar e fazer crescer. E o sofrimento? O êxtase, a paixão, o perigo, as alturas, as tempestades? E o riso, o sufoco, os murmúrios e as lágrimas? Onde cabem o desânimo e o êxito, o castigo e o troféu?

Salvador Sobral e Baptista-Bastos são ainda os ‘actores’ do meu dia, como personagens de histórias em dois livros encostados um ao outro na mesma prateleira. Quantos ‘livros’ vivemos ao mesmo tempo? De olhos arregalados e sedentos de vida. Quantos de nós, sem tempo para colocar um marca-páginas, dobra ligeiramente a folha para passar a outra narrativa na esperança de voltar ao enredo em que ficou.

Morremos de tanta vida que contemos. Morremos de amor, como escreveu BB. Ou morremos de tanta felicidade, como disse o Salvador.

Mas os livros nos quais sou personagem continuam a ser escritos, lidos, sublinhados, marcados, abandonados e repegados. E tantos livros a serem sorvidos no mesmo instante, no sumiço do tudo que parece nada.

Talvez a vida seja uma biblioteca do tempo.

folha dobrada

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