TARDE (a publicar)

A tarde é mais do que o pousar brando das aves e das borboletas.
Mais intensa que o rasto de uma gaivota no fio do horizonte
é o tempo de te ter entre os meus dedos. Partes. Silencio-me.

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Fotografia de ©Allan Wallberg

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De Jorge C Ferreira

São magas, feiticeiras, fadas, artesãs da palavra e criadoras do belo. Algumas eternas Divas, outras Anjos de asas raras. São celestiais os seus voos, quer versem a solidão, o sofrimento, o erotismo, o sexo, o amor, a alegria, o que quer que seja.

Acredito que têm poderes especiais e vivem, enquanto escrevem, num mundo só seu. Acredito que têm visões e sentem os outros anjos que as vêm visitar. Têm lanças, velas, fumos, fogos, espadas e punhais e de tudo isso só retiram a beleza.

Por vezes perdem tempo sem fim na busca da palavra perfeita. Uma busca incessante. Um eterno desassossego.

São as belas poetisas do meu País. Lindas e corajosas mulheres. Muitas entre um verso e outro são donas de casa. Não acreditam? É verdade. Não vivem em pedestais, andam ao nosso lado na rua. Amam e beijam como nós.

A sorte que eu tenho de algumas serem minhas Amigas! Uma dádiva.

Vos beijo, Senhoras minhas, as vossas mãos.

EA 2017-148 (Reino de Valência) Jorge C Ferreira

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Óleo e técnica mista s/ tela, de ©Jeanie Tomanek (EUA)

O GUARDADOR DE SILÊNCIOS (excerto)

A Bernardo Sassetti

Sim, oiço e amo ainda os silêncios.
(…)
Escreveste nas pautas segredos:
os sonhos parecem só dos outros.
Como Alice.
Não trouxeste Alice do outro lado?
Afinal ela podia ter sido a Menina no piano.
(…)
Sabes, nos teus dedos irrequietos
Sempre se sentaram anjos em paixão.
Era dos pulos que riam sempre. As mãos
acariciavam como o vento um carrossel.
.
Fazes-me falta. Partiste ainda rapaz.
Doem-me as partituras que têm o pó da saudade.
Dói-me esta ausência irremediavelmente
silenciosa e doce que é criança inquieta.
.
Por ti. Pelo chamamento do mar, eu choro.
Pela ilusão que não guardaste para ti.
-todos temos direito ao sonho! –
Por mim. Quando tocas silêncios e noites.
É na brandura dos teus olhos que agora
me perco à espera da resposta rouca do mar
que ainda guarda numa gruta as tuas lágrimas.

(a publicar)

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https://www.youtube.com/watch?v=XfCzfn89W18

«Eu sei que não se ama sozinho»

Há muito que revelo o meu apoio a Salvador Sobral, não só como concorrente português ao festival, mas sobretudo enquanto representante de uma camada de jovens músicos  que não se pautam pelos cânones estereotipados e rígidos  da ‘fórmula’  que os levaria a ser ‘artistas  reconhecidos’. Antes não se envergonham do amor, do gosto e da entrega com que se expressam e cantam.

É de surpreender o rápido, numeroso e sonoro apoio que Salvador Sobral suscitou nos portugueses de todas as idades. É um jovem raro, talentoso, sensível, espontâneo, culto e de uma imensa profundidade.
Com uma aparente ingenuidade que cativa, Salvador não teme levantar o véu da sua essência. É um jovem de causas, fomentador do bem. Li de uma amiga que ele é um ‘menino-poema’. Concordo e subscrevo esta adjectivação.

Não me parece que me venha a desapontar sendo vaidoso, arrogante e inadequado. O que temo é o embate corrosivo de invejas que proliferam neste mundo-cão das artes e da música (e não só), de ‘pseudo-estrelas’  de pouca qualidade,  preguiçosos,  ‘salvos’ pelo aparato cénico e pela muita maquilhagem.
Salvador pode tornar-se presa ‘fácil’ de abutres que o queiram pisar e enxovalhar, mas tem ao seu lado e do seu lado a mana, uma jovem mulher que sabe onde repousar a sua cabeça. Luísa tem a seu favor um maior traquejo para lidar com a frustração. Salvador é essência em estado puro. Tem a generosidade congénita dos poetas e amor a mais num coração de pássaro.

Que o teu voo seja leve e suave como a tua presença que tece fios numa teia que nos faz sentir orgulhosos, mais fortes e felizes enquanto povo.

«Sem fazer planos do que virá depois
O meu coração pode amar pelos dois»

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CAMINHO

Caminho
E os meus passos ouvem o chão
Caminho largo,
Chão e
Álcool verde de árvores.

.

A copa verde aliás
Cobre o omnipotente sol
E vultos há sem paradeiro
E sombras.

.

Encosto o ouvido à terra
E oiço variações
Como bagos de uvas
Que espremo.

.

Há um lençol de folhagem
Vivo e seco
E há um sino que oiço
Em cada pedra atenta.
Surgem troncos
Cortados por machados que não vejo
E cortam-me o caminho.

.

Frémitos.
O vento limpa o ultimo
Orvalho líquido
E, entre duas árvores,
A imagem dum abraço que se aperta.

.

Luz que parece encadear
O ritmo desta serenidade a assolar-me
A alma e eu quero a
Poluição para vestir
Negra para ter de provar
Agora a ausência convertida
Em terra.

(21-11-1976)

*
Lília da Silva, actualmente, Lília Tavares
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Óleo s/ tela, de ©Sérgio Ribeiro (Galiza, Espanha)    

VIDA, UMA BIBLIOTECA DO TEMPO

Não sei dizer a razão, mas senti um arrepio quando estava a postar em ‘Quem lê Sophia’ uma foto com a notícia da partida do jornalista e autor Baptista-Bastos. Fiz scroll na Página e fixei o meu olhar na alegria do rosto transparente de Salvador Sobral que canta dentro de um par de horas em Kiev.

O cantor afirmou ontem: «Se eu morrer amanhã (hoje), morrerei muito feliz».

Não sei se BB morreu feliz. Sei que apesar de apreensivo e ansioso, Salvador sente-se feliz neste momento. Disto ninguém parece ter dúvidas.

BB e Salvador são hoje os personagens da Página que ajudo a manter de pé pela Poesia e pela Língua Portuguesa. Ambos, à sua maneira, com os seus talentos e trabalho, e no seu tempo também têm vivido para dignificar as boas coisas que a pátria de Camões e Pessoa constrói e oferece.

Mas foi por sentir esta simultaneidade, o arrepio do imprevisível que me deu para escrever umas linhas. Um universo pensante e actuante, do bem e do mal, sempre em conflito gira à nossa volta como ‘anéis de Saturno’. Difícil é atingirmos o silêncio, o nada, o vazio que nos descansa. A vida é nascer, fazer sentido, viver ao limite, deixar pegadas no solo, no papel, nos livros, nos riscos e borrões. É também cuidar e dar liberdade a quem nos foi confiado para amar e fazer crescer. E o sofrimento? O êxtase, a paixão, o perigo, as alturas, as tempestades? E o riso, o sufoco, os murmúrios e as lágrimas? Onde cabem o desânimo e o êxito, o castigo e o troféu?

Salvador Sobral e Baptista-Bastos são ainda os ‘actores’ do meu dia, como personagens de histórias em dois livros encostados um ao outro na mesma prateleira. Quantos ‘livros’ vivemos ao mesmo tempo? De olhos arregalados e sedentos de vida. Quantos de nós, sem tempo para colocar um marca-páginas, dobra ligeiramente a folha para passar a outra narrativa na esperança de voltar ao enredo em que ficou.

Morremos de tanta vida que contemos. Morremos de amor, como escreveu BB. Ou morremos de tanta felicidade, como disse o Salvador.

Mas os livros nos quais sou personagem continuam a ser escritos, lidos, sublinhados, marcados, abandonados e repegados. E tantos livros a serem sorvidos no mesmo instante, no sumiço do tudo que parece nada.

Talvez a vida seja uma biblioteca do tempo.

folha dobrada

MÃE BRISA

Como uma brisa de vento
passaste pelas minhas manhãs.
Era de mar o cheiro que trazias contigo,
de lágrimas e serenidade ocultas
o colo onde permaneci como raio de sol
em dia de nevoeiro.
Neblinas que as ondas trouxeram
foram os braços com que me acolheste.
Lamento, mãe, a torre de Babel que foram os nossos dias
e o silêncio cinzento da tua ausência.
Mas todas as memórias têm a sua metade de esquecimento,
outra metade de amor.
Ainda sou o búzio e as conchas do nosso areal.
As gaivotas levaram gritos porque a praia não tem nome
mas ainda recorda os teus passos na areia enquanto o sol nascia…

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Ilustração: Mama, por ©Cláudia Tremblay